Vamos fazer um exercício simples, mas profundamente transformador: suspender, por instantes, a posição que ocupamos. O nosso estatuto. O nosso percurso. Os privilégios e os obstáculos que moldaram a nossa trajetória. E perguntar: que regras consideraríamos justas se não soubéssemos qual seria o nosso lugar de partida?
Esta reflexão aproxima-se diretamente da teoria filosófica de John Rawls, em especial do conceito de “véu da ignorância”, apresentado em Uma Teoria da Justiça. Rawls defendia que uma sociedade justa é aquela cujas regras seriam escolhidas por pessoas que desconhecem a posição que irão ocupar nessa mesma sociedade. Sem saber se nascerão ricas ou pobres, com ou sem deficiência, homens ou mulheres, no fundo, pertencentes a um grupo hegemónico ou a um grupo oprimido. O objetivo não é eliminar o mérito, mas garantir que as oportunidades não dependem exclusivamente das circunstâncias de nascimento.
Porque a verdade é esta: o mérito nunca existe num vazio.
Duas pessoas podem correr a mesma corrida, mas não partem necessariamente da mesma linha. Uma pode crescer num contexto de estabilidade financeira, acesso à educação, rede de contactos e reconhecimento social. Outra pode enfrentar discriminação, barreiras arquitetónicas, preconceitos, insegurança económica ou ausência de referências. Quando ignoramos estas diferenças estruturais, corremos o risco de confundir privilégio acumulado com mérito individual.
O sociólogo Pierre Bourdieu aprofundou precisamente esta ideia através do conceito de “capital cultural”. Segundo Bourdieu, determinados comportamentos, formas de comunicação, conhecimentos e códigos sociais são valorizados pelas instituições porque refletem a cultura dominante. Ou seja, aquilo que muitas vezes é interpretado como “talento natural” pode, na realidade, resultar de vantagens sociais herdadas e invisíveis.
Também Michael Sandel, filósofo contemporâneo e autor de The Tyranny of Merit, alerta para os perigos de uma sociedade excessivamente meritocrática. Quando acreditamos que o sucesso resulta apenas do esforço individual, tendemos a concluir que quem não alcança determinadas posições simplesmente “não trabalhou o suficiente”. Esta visão ignora desigualdades estruturais e reduz empatia social. Mais grave ainda: transforma privilégios em mérito moral.
Nas organizações, esta reflexão torna-se particularmente relevante. Quantas decisões são influenciadas por enviesamentos inconscientes? Quantas oportunidades surgem através de redes informais? Quantas pessoas são avaliadas segundo critérios que favorecem perfis mais próximos da norma dominante? A própria Academia Salvador, projeto mais recente da Associação Salvador que procura disseminar conhecimento na
área de DEI, destaca que uma cultura inclusiva não analisa o mérito isoladamente das condições de partida e reconhece que os enviesamentos influenciam decisões mesmo sem intenção discriminatória.
Falar sobre privilégio não significa negar esforço, dedicação ou competência. Significa reconhecer que algumas pessoas tiveram menos barreiras para demonstrar esse talento. E que igualdade não é tratar todas as pessoas da mesma forma, mas criar condições para que todas tenham oportunidades reais de participação, desenvolvimento e reconhecimento.
Talvez a verdadeira pergunta não seja “quem merece mais?”, mas antes: “que condições estamos a criar para que o mérito possa realmente emergir?”
Porque uma sociedade verdadeiramente justa não é aquela que finge que todos começaram no mesmo lugar. É aquela que tem coragem de olhar para as diferenças de partida e agir sobre elas.
